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USO RACIONAL DA ÁGUA
24/7/2006

Décadas atrás ninguém imaginava que a água viria a ser um bem tão disputado como o é hoje. Afinal, ela sempre existiu em abundância no planeta e, falando-se de Brasil, as preocupações eram ainda menores. Isso porque, segundo dados da Agência Nacional de Águas (ANA), o País concentra 14% das águas doces da Terra e 53% das pertencentes ao continente sul-americano. Mas o desperdício e as práticas indevidas de captação e devolução da água à natureza, principalmente por parte das indústrias que mais demandam recursos hídricos em sua linha de produção, vem tornando a oferta desse bem natural cada vez mais escassa, e seu preço, conseqüentemente, cada vez mais alto. Para as indústrias, o custo da água não consiste apenas no valor pago às concessionárias pelo fornecimento; incluem-se também os gastos com bombeamento, tratamento e lançamento final dos efluentes gerados. Segundo cálculos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), os custos reais da água podem alcançar valores até três vezes maiores do que o total da conta do fornecimento de água e lançamento de esgotos cobrado pelas concessionárias. Some-se a isso a cobrança pelo uso da água, inserida por meio da Lei número 9.433, de 1997. Inúmeras iniciativas vêm surgindo para tentar compor um cenário mais equilibrado no uso e preservação da água, tanto por parte do governo como do setor privado. Dentre estas, estão conscientizar a população e os empresários da importância de economizar o recurso hídrico, tanto em relação aos aspectos naturais e sociais como aos econômicos. Nesse sentido, a Fiesp vem tomando algumas ações, a fim de orientar as indústrias na implantação de programas de conservação e reúso da água. Desde então, já publicou quatro trabalhos referentes ao tema “água”. Uma das publicações de destaque é o Manual de Orientações para o Setor Industrial sobre Conservação e Reúso da Água, elaborado em parceria com a Câmara Ambiental da Indústria Paulista e a ANA. O Manual aborda estratégias para a racionalização da utilização dos recursos hídricos e a redução dos impactos negativos relativos à geração de efluentes contendo altos índices de substâncias poluentes. O principal objetivo do trabalho é apresentar as etapas envolvidas na implantação de um Programa de Conservação e Reuso de Água (PCRA) para indústrias já em operação. Tais práticas constituem uma maneira inteligente de ampliar o número de usuários de um sistema de abastecimento de água, sem a necessidade de grandes investimentos na ampliação ou na instalação de novos sistemas. Para implantar um PCRA, conforme detalha o Manual, é preciso avaliar de forma sistêmica o uso da água pela indústria, ou seja, otimizar o consumo – com a conseqüente redução do volume de efluentes gerados – e utilizar as fontes alternativas de água disponíveis, considerando os diferentes níveis de qualidade necessários à produção. As ações neste sentido são específicas para cada setor industrial. Na maioria das vezes, entretanto, envolvem modificações quanto ao uso da água em equipamentos e processos, com a incorporação de novas tecnologias e procedimentos ; otimização dos processos de resfriamento; reúso aplicado em diversos setores da planta industrial; e implantação de um sistema de gestão da água. A adoção dos PCRAs pelo setor industrial reverte-se em benefícios econômicos às empresas, permitindo que elas aumentem sua eficiência produtiva, tendo como conseqüência direta a redução do consumo de água e do volume de efluentes gerados. Já como conseqüências indiretas, há a redução do consumo de energia e de produtos químicos, a otimização de processos e a redução de despesas com manutenção. Além disso, ações dessa natureza têm reflexos diretos e potenciais na imagem das empresas, demonstrando a crescente conscientização do setor com relação à preservação ambiental e à responsabilidade social, bem como sobre o aumento da competitividade. Isso, em função de fatores como aumento do valor agregado dos produtos; redução dos custos relativos aos sistemas de captação, abastecimento, tratamento, operação e distribuição de água (o mesmo valendo para os efluentes gerados, refletindo de forma direta nos custos de produção e reduzindo custos relativos à cobrança pelo uso da água); e redução de custos de manutenção corretiva, uma vez que a implantação de um sistema de gestão da água implica o estabelecimento de rotinas de manutenção preventiva. Sob a ótica do meio ambiente, implantar um PCRA contribui para a prevenção dos recursos hídricos, favorecendo o desenvolvimento sustentável. Por fim, no que tange à questão social, provoca um aumento da disponibilidade hídrica à população por meio da redução das captações de água dos mananciais. Receitas Econômicas A Mahle Metal Leve é um dos exemplos de empresa que implantou um eficiente programa de conservação e reúso da água. Um dos principais produtos fabricados na planta de Mogi Guaçu (SP) – Unidade Trem de Válvulas – são camisas de cilindros para motores automotivos, cujo processo inclui a usinagem das peças fundidas em tornos de comando numérico. “ Este processo utiliza jatos de solução aquosa de óleo solúvel, para evitar zonas de alta temperatura e facilitar o corte das peças, gerando grande quantidade de vapor, que fica retido na câmara de usinagem do torno e é captado por um exaustor. Após a condensação, o vapor é convertido em efluente líquido, composto por água e óleo”, explica Paulo Saia, do Departamento de Usinagem de Camisas da Mahle Metal Leve. Além do sistema de resfriamento das peças por óleo solúvel, os 14 tornos existentes no setor são equipados com aparelhos de ar condicionado para refrigeração dos painéis eletrônicos de comando. Cada equipamento de refrigeração gera até 10 litros/dia de água condensada, dependendo da umidade do ar, totalizando aproximadamente 19,4 mil litros/ano de efluentes líquidos. Até a implantação do programa de reúso da água, em Julho de 2003, os efluentes gerados pelo processo produtivo da Mahle eram enviados à Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) da empresa, de onde eram lançados no Córrego do Ipê, distante cerca de 1 km da planta, após passar por uma lagoa utilizada para equalização da vazão. “O alto consumo de água captada em poços, os gastos com tratamento de efluentes (calculados em aproximadamente R$ 231/tonelada de efluente bruto), e a necessidade de desativar o uso da lagoa nos levaram a buscar alternativas de caráter preventivo para otimização do circuito das águas dos tornos”, conta Saia. A medida adotada pela empresa consistiu em viabilizar o reúso do efluente condensado dos dois sistemas de refrigeração para a diluição do óleo solúvel, fechando o circuito de água dos tornos. Para isso, foi instalado em cada torno um sistema de drenagem, para canalização dos condensados gerados nos aparelhos de ar condicionado e nos exaustores. A água condensada passou, então, a ser conduzida por meio de canaletas até a área de preparo do óleo solúvel, realizando o aproveitamento da água no próprio processo. “A implantação dessa medida não requereu investimentos significativos. Adaptamos as mangueiras de borracha às saídas de água dos exaustores e dos aparelhos de ar condicionado dos tornos, de modo a conduzir as águas condensadas ao setor de preparo do óleo solúvel”, explica Saia. As modificações na produção da Mahle resultaram em benefícios econômicos, além de ambientais. Com isso, o consumo de água usada na diluição do óleo solúvel baixou 97 mil litros/ano, o que representa uma redução de 13,5% na captação total de água da planta, estimada em 720 mil litros/ano. “Além disso, conseguimos diminuir em 77,6 mil litros/ano a vazão de efluente oleoso para a ETE, o que possibilitou uma redução de custo no tratamento de efluentes de R$ 22,43 mil/ano”, revela Saia. Outro exemplo de sucesso em redução de consumo de água industrial é o da Lwarcel. A empresa, que produz 120 mil toneladas/ano de celulose de eucalipto branqueada e celuloses especiais, recebeu, no dia 31 de Maio, o prêmio Proof Not Promisses, concedido pela General Eletric. A premiação se deu pela implantação na Lwarcel de melhorias nos sistemas de utilização de água durante o processo de produção de celulose, que resultaram em economia de 434.520 metros cúbicos de água por ano. O trabalho foi fruto de uma parceria entre a Lwarcel e a GE INfrastructure Water & Process Technologies, para a operação e otimização do sistema de osmose reversa da fábrica de celulose. O sistema consiste na retirada de sais da água que sobra da produção e a sua reutilização no processo produtivo. A economia proporcionada foi de 8% do total consumido pela fábrica. “Isso significa 51 metros cúbicos de água por hora, o equivalente a uma economia de 1.224 metros cúbicos por dia; esse índice, por sua vez, equivale ao consumo diário de água de uma população de 5.165 habitantes”, informou a Assessoria de Imprensa da Lwarcel.


Fonte: Revista Saneamento Ambiental


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